Entender a guerra que vem: parte 4 (4/5)





Quarta parte: Elementos estrangeiros do exército da sombra (paramilitares, mercenários e forças especiais)

No dia 14 de março de 2018, Erick Prince, fundador da empresa privada Blackwater Military Company, reuniu cerca de cem celebridades no seu rancho de Virginia. O convidado de honra naquele dia não era outro senão Oliver North, a figura principal com Elliott Abrams - o atual enviado especial dos EUA à Venezuela - para a guerra suja contra a Nicarágua na década de 1980 (1 ). O retorno de Erick Prince no centro das atenções, depois de ter sido marginalizado pelos governos dos EUA (como seu colega Abrams), deveria ter sido um sinal de alerta. Mas é apenas um ano depois que descobrimos que o fundador da Blackwater estava se preparando para recrutar 5.000 mercenários em nome de Juan Guaido (2). Este plano macabro não teria, por enquanto, encontrado nem o eco da Casa Branca, mas sensível à influência de Prince, nem o financiamento necessário de 40 milhões de dólares, uma quantia ridícula se levarmos em conta o roubo multi-bilionário pertencente ao Estado venezuelano pela administração dos EUA.

No entanto, o recrutamento de mercenários já começou. No dia 29 de novembro de 2018, o presidente Maduro denunciou em um discurso televisionado a constituição de um batalhão de 734 cães de guerra nas bases militares de Eglin, na Flórida, e Tolemaida, na Colômbia. No dia 23 de março de 2019, o ministro da Comunicação, Jorge Rodriguez, anunciou que 48 mercenários recrutados em El Salvador, em Honduras e na Guatemala retornaram ao território venezuelano, com o objetivo de cometer ataques contra as mais altas autoridades do país, bem como atos de sabotagem e operações sob bandeira falsa (3). Segundo os serviços de inteligência da Venezuela, esses mercenários foram recrutados por Roberto Marrero, o braço direito de Juan Guaido (4). Seja via Erick Prince ou outros meios, contratar mercenários para desestabilizar a Venezuela é uma dura realidade.

No dia da prisão de Marrero, os serviços de segurança venezuelanos capturaram Wilfrido Torres Gómez, também conhecido como Necocli, chefe da banda narcoparamilitarista colombiana "Los Rastrojos". Como os mercenários, os paramilitares colombianos são um participante estrangeiro fundamental no futuro exército que Guaido poderia ter.

Os paramilitares são uma consequência do conflito colombiano. Originalmente criados por proprietários de terra e soldados, ou na veia dos cartéis de drogas, esses grupos responsáveis pelas tarefas mais inomináveis, reuniram-se sob o comando da Autodefesa Unidas da Colômbia (AUC). De 1997 a 2006, eles atterorizaram populações inteiras, as deslocando pelo território colombiano e encargando-se dos abusos que não queriam assumir os serviços do Estado. Sob o governo do Álvaro Uribe (2002-2010), os paramilitares ganharam uma presença real no cenário político, forjando ligações com líderes políticos e econômicos e até financiando um terço dos parlamentares deste país, como mostram os documentos apreendidos no computador do líder paramilitar Jorge 40 (5). Enquanto a sua principal atividade continua ligada ao tráfico de cocaína, os paramilitares atuam como um estado paralelo e influente. Dotados de uma autoridade adquirida através de uma violência extrema e de terror psicológico, eles impõem seus padrões sociais, políticos e econômicos aos territórios que controlam. A "desmobilização" da AUC em 2006 resultou numa implosão em estruturas menores, que mantiveram o mesmo modus operandi.

Os paramilitares colombianos chegam na Venezuela depois do golpe contra o Hugo Chávez de 2002. Primeiro, como assassinos contratados por certos proprietários de terras, ansiosos por eliminar os líderes camponeses que reivindicavam a aplicação da reforma agrária. Eles começam em seguida a investir partes das grandes cidades enquanto permanecem muito ativos na fronteira venezolano-colombiana.

Os venezuelanos começam a conhecê-los em maio de 2004, depois que 124 paramilitares foram presos nos arredores de Caracas. Eles foram trazidos por Roberto Alonso, um político da oposição, com o objetivo de assassinar o Hugo Chávez e altos responsáveis da Revolução. Ao longo dos anos, a sua presença se reforçou ao longo da fronteira (6), como em algumas áreas das grandes cidades, onde eles constituíram várias células dormentes. Sem esquecer o eixo de comunicação estratégica que leva dos Andes à costa caribenha, corredor essencial para a distribuição da cocaína. É nessa parte do território que a maioria dos líderes paramilitares que estavam na Venezuela foram presos ou mortos. É também nesse eixo que se encontram, e isso não é coincidência, as cidades onde ocorreram os confrontos mais duros das guarimbas de 2014 e 2017.

Ao contrário do crime organizado “clássico”, os paramilitares dispõem de uma hierarquia militar, de um serviço de inteligência, de armamento pesado, mas, sobretudo, agem em função de uma politização marcada pelo seu anticomunismo, adquirida desde a sua origem na luta contra a guerrilha. Eles impõem a sua orientação ideológica às populações que submetem. Ao contrário da máfia, eles mantêm relações muito boas com as elites colombianas, para quem eles cumprem o papel de exército paralelo. A sua utilização contra a Venezuela permitiria à Colômbia não esvaziar as frentes internas que o seu exército mantém com a guerrilha.

Na fronteira com a Venezuela, os paramilitares controlam o tráfico de drogas bem como o contrabando de gasolina e de alimentos. Como nos lembrou o Freddy Bernal, prefeito dessa região, em uma entrevista exclusiva, “A Colômbia produz 900 toneladas de cocaína. Para produzir um quilo, você precisa de 36,5 litros de gasolina e a Colômbia não produz o suficiente. Os paramilitares são encarregados de encaminhar pelo contrabando 36 milhões de litros de gasolina provenientes da Venezuela, destinada em grande parte à produção de cocaína “(7), e em troca controlam a distribuição de drogas no país vizinho, através de grupos criminosos venezuelanos.

Os confrontos do Estado Bolivariano com os paramilitares são cada vez mais frequentes. Não apenas para lutar contra os seus múltiplos tráficos, mas sobretudo para defender a soberania do Estado sobre o território. Segundo Freddy Bernal, “os paramilitares desempenham o mesmo papel que o Estado Islâmico desempenhou no Iraque, na Líbia e na Síria. Eles visam fragmentar o nosso território. São o Estado Islâmico da América Latina “(8). Eles têm uma função essencial na explosão do Estado-nação venezuelano, um dos principais objetivos da guerra que se anuncia.

De Roberto Alonso a Roberto Marrero, há muitos exemplos mostrando que os paramilitares colombianos estão ligados à oposição venezuelana. Mas eles respondem também aos planos do Pentágono nas suas ações planejadas contra a Venezuela. Como nos revelou um documento do SouthCom, a força militar dos Estados Unidos responsável pela América Latina, os estrategas militares estadunidenses preconizam “recrutar paramilitares principalmente nos campos de refugiados em Cúcuta, La Guajira e no norte da província de Santander, zonas amplas povoadas por cidadãos colombianos que emigraram para a Venezuela e agora regressam ao seu país para escapar a um regime que aumentou a instabilidade nas fronteiras, aproveitando o espaço vazio deixado pelas FARC, o ELN ainda beligerante e as atividades [paramilitares] na região do Cartel do Golfo”(9).

Como se pode ver, os Estados Unidos e seus aliados latino-americanos já dispõem de um exército. Esse é composto por um punhado de desertores e de combatentes civis venezuelanos, de membros do crime organizado, de mercenários estrangeiros e de paramilitares colombianos, isso tudo estruturado por forças especiais dos Estados Unidos, já presentes na região (10), e pelo apoio tático dos exércitos dos países vizinhos. Outros participantes poderiam ser convidados para esse conflito. O que explicaria a presença de várias centenas de soldados israelitas no Brasil e em Honduras (11).

O armamento dessa força militar irregular está também em andamento. Como o denunciou o governo russo pela voz da Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores daquele país, “os Estados Unidos e seus aliados da OTAN estão atualmente estudando a possibilidade de adquirir em um país da Europa de leste um importante lote de armas e munições destinado aos opositores venezuelanos. Trata-se de metralhadoras pesadas, de lança-granadas integrados e automáticos, de mísseis terra-ar portáteis, de diferentes munições para arma de fogo e peças de artilharia. Esse carregamento deveria ser transportado até a Venezuela através do território de um país vizinho, com a ajuda de aviões de carga da empresa estatal ucraniana Antonov “(12). Não é necessário ser um especialista militar para entender que esse tipo de arsenal é o mesmo que é usado pelos beligerantes que combatem contra a República Árabe da Síria. Nesse caso, os Estados Unidos ou os países vizinhos não teriam nem de assumir um papel de protagonista principal na guerra irregular contra a Venezuela.

Se o estrangulamento económico, político e financeiro da Venezuela e as diferentes pressões psicológicas e diplomáticas não se mostram suficientes para derrubar o presidente Maduro, então o cenário que descrevemos será inevitavelmente aplicado. Os diferentes componentes da frente militar terão a tarefa de desmantelar a Venezuela sem necessariamente responder a um comando central, mas com o objetivo comum de tornar impossível o controlo do território pelo poder legítimo. A continuação, analisaremos as estratégias para alcançar tais fins.


Parte 5: A estratégia militar por vir.

Para as outras partes da análise “Venezuela: entender a guerra que vem”, clicar aqui.

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Tradução: Ulysse Gallier

Notas 
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(1) Noah Kirsch, “Inside Erik Prince's Return To Power: Trump, Bolton And The Privatization Of War”, Forbes, 04/04/2018, https://www.forbes.com/sites/noahkirsch/2018/04/04/blackwater-erik-prince-trump-afghanistan-bolton/#5f0b83c817d7

(2) Aram Roston, Matt Spetalnick, “Blackwater founder’s latest sales pitch - mercenaries for Venezuela”, Reuters, 30/04/2019,

(3) “Gobierno Nacional denunció el ingreso de paramilitares para desestabilizar el país”, Venezolana de Televisión, 23/03/2019, http://vtv.gob.ve/denuncio-ingreso-paramilitares-desestabilizar/

(4) Multimedio VTV, “Identificados grupos paramilitares que ingresaron a Venezuela con fines terroristas”, Youtube, 23/03/2019, 

(5) Romain Migus, “Interpol, la Farc et Chávez : L'ordinateur de Gauche et l'ordinateur de Droite”, Venezuela en Vivo, 17/05/2008, https://www.romainmigus.info/2013/06/interpol-la-farc-et-chavez-lordinateur.html

(6) Romain Migus, “El Tachira: ¿un estado colombiano?”, Venezuela en Vivo, 03/12/2008, https://www.romainmigus.info/2013/05/el-tachira-un-estado-colombiano.html

(7) Romain Migus, “Interview exclusive avec Freddy Bernal”, Youtube, 25/05/2019, disponível em espanhol legendado em francês em https://www.youtube.com/watch?v=Mq55NuS0ues

(8) Romain Migus, “Interview exclusive avec Freddy Bernal”, Youtube, 25/05/2019, ibid.

(9) Kurt W. Tidd, “Plan to overthrow the Venezuelan Dictatorship –“Masterstroke”, disponible sur https://www.voltairenet.org/article201100.html

(10) “Declaración del Gobierno Revolucionario de Cuba: Urge detener la aventura militar imperialista contra Venezuela”, Granma, 13/02/2019, http://www.granma.cu/cuba/2019-02-13/declaracion-del-gobierno-revolucionario-13-02-2019-21-02-39    

(11) “Tratado militar : 1000 soldados de Israel a un paso de llegar a Honduras”, El Heraldo, 06/05/2019, https://www.elheraldo.hn/pais/1281719-466/tratado-militar-1000-soldados-de-israel-a-un-paso-de-llegar-a

(12) Conferência de imprensa de Maria Zakharova, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Rússia, Moscou, 22 de fevereiro de 2019, http://www.mid.ru/fr/web/guest/foreign_policy/news/-/asset_publisher/cKNonkJE02Bw/content/id/3540526