Comprender a guerra que vem: parte 5 (5/5)





Quinta parte: a estratégia de agressão.

Para entender como a estratégia desses grupos armados será articulada, devemos retornar às guarimbas, nome dado na Venezuela a esses episódios insurrecionais que o país conheceu nos últimos anos. No dia da eleição do Nicolas Maduro, no dia 14 de abril de 2013, Henrique Capriles, mau perdedor, chamou seus partidários a sair nas ruas. Resultado: 11 mortos e 78 feridos (1). A oposição reiterará os confrontos com o poder reativando as guarimbas em 2014 (43 mortos, 608 feridos) e em 2017 (142 mortos, 1934 feridos). A maioria das mortes são atribuíveis aos manifestantes, quando eles impediram aos cidadãos de atravessar as barricadas para acessar os centros de saúde, ou quando assassinaram pessoas suspeitas de chavismo, degolando-os, queimando-os vivos, linchando-os ou atirando neles (2). A polícia e os militares não estão imunes à loucura assassina dos participantes das guarimbas, 16 membros das forças de segurança foram assassinados em 2014 e 2017, e 102 foram feridos por tiros. 

Se as guarimbas foram uma tentativa de desestabilizar o governo eleito, parece hoje claro que elas foram, acima de tudo, uma repetição das estratégias militares de fragmentação do país. Militantes da oposição, delinquentes, paramilitares, todos os atores desse exército da sombra, descritos acima, contribuíram às guarimbas (3). Eles forjaram, assim, uma experiência comum de combate e desenvolveram uma narrativa política dessa guerrilha urbana, misturando heróis e mártires, consolidando assim a coesão simbólica de todos os participantes (4). Em alguns bairros controlados, uma caça às bruxas foi lançada para "limpar" os chavistas que moravam ali (5). Ao longo dos anos, as guarimbas se perfectionaram e permitiram aos seus instigadores de levar em conta as reações e os movimentos do Estado na reconquista dos territórios.

Ao nível internacional, isso ajudou a ancorar a imagem de um governo opressor que não hesita em assassinar a sua própria população. Essa história imaginária visava aniquilar os apoios à Revolução Bolivariana vindo dos povos europeus e norte-americanos.

No entanto, a localização das barricadas e dos grupos subversivos parecia responder a uma operação de uma escala muito diferente daquela da revolta estudantil apresentada pela mídia. Como o governo repetidamente observou, esses embriões subversivos foram sempre contidos. Dos 335 municípios que compõem a Venezuela, apenas 18 sofreram violência por guarimbas em 2014 (5%) e 51 em 2017 (15%) (6). Como pode ser visto, os participantes dessas guerrilhas urbanas estavam longe de representar uma ameaça real para o estado. No entanto, as particularidades geográficas e sociais dos municípios bloqueados pelas guarimbas indicam que os confrontos poderiam recomeçar durante um conflito militar. O aumento da violência e a melhoria dos modos de operação das guarimbas entre os episódios de 2013, 2014 e especialmente os de 2017, nos levam a acreditar que esse modelo de controle territorial será uma das táticas que seriam necessárias para um conflito militar.

Já mencionamos a importância do corredor que conecta os Andes à costa caribenha. É a rota de abastecimento através da qual passam muitos produtos, produzidos na Venezuela ou importados da Colômbia ou através do porto de Puerto Cabello (7). Como já mencionamos, é também um corredor estratégico para a venda de cocaína, o que explica a presença de paramilitares e de muitos grupos mafiosos.

No entanto, é nessa região que as guarimbas foram as mais violentas, especialmente em certos bairros de San Cristóbal e de Mérida, e nas cidades de Cabudare, ou de San Diego. Esses territórios tem em comum uma certa homogeneidade social, da classe média a média alta, que constitui a base da oposição radical. É importante notar que esses não são os locais de residência da burguesia ou das elites venezuelanas. Essas áreas, embora muito politicamente ativas, são povoadas por uma classe média que os estrategistas da guerra que vem não hesitarão em sacrificar.

Os territórios mencionados permitem bloquear o abastecimento das grandes cidades, pelo controle dos canais de comunicação. Cabudare é a entrada para Barquisimeto desde os estados agrícolas do sul. Muitos produtos destinados às metrópoles da costa passam por essa importante cidade venezuelana. San Diego está localizada nos arredores de Valência, capital industrial do país, na rota para Caracas. Essa cidade se encontra também na estrada que leva a Puerto Cabello, o principal porto da Venezuela. Além disso, Barquisimeto e Valência são pontos de passagem obrigatórios nas estradas que ligam Maracaibo e a região petrolífera de Zulia, Caracas e o resto do país.

Outras cidades importantes foram presas no caos das guarimbas. Foi particularmente o caso de Ciudad Guiana (Puerto Ordaz). Essa cidade fica na confluência da orla petrolífera do Orinoco e da bacia de mineração, e a poucos passos das três plantas hidroelétricas que fornecem a Venezuela. Ciudad Guiana (Puerto Ordaz) abriga a sede das empresas que administram essas riquezas. Como no eixo costeiro andino, o controle dessa cidade é eminentemente estratégico.



Localização das guarimbas as mais violentas, ao longo do eixo andino-costeiro

Em Caracas, as guarimbas aconteceram principalmente no bairro chique de Chacao, localizado a leste da cidade. Juntando três eixos principais que ligam o leste e o oeste da capital, esse bairro corta de facto a capital em dois. É também o pulmão econômico e financeiro do país.

Toda vez, essas áreas territoriais possuem uma capacidade relativa para operar de forma autônoma, controlando as rotas de fornecimento de mercadorias ou os centros de produção localizados em seus territórios. Essa particularidade lhes confere a possibilidade de anexar permanentemente as áreas conquistadas.

Se as guarimbas tivessem conseguido erigir barricadas e bloquear as comunicações vitais por alguns meses, podemos entender o que aconteceria se esses mesmos grupos formassem um batalhão e fossem defender esses territórios por meio de armas fornecidas por agentes externos. A Venezuela seria fragmentada. A administração central localizada em Caracas teria muita dificuldade para reafirmar sua autoridade sobre todo o território.

Porém, essa forma de luta civico-militar permanece confinada às áreas urbanas e periurbanas de classe média. Outras partes do território estão sob ameaça da máfia e dos paramilitares. Esses últimos são muito ativos nas áreas fronteiriças com a Colômbia e em algumas áreas rurais do país. Quanto aos numerosos grupos criminosos, eles já estão em confronto com o estado venezuelano para o controle de regiões periféricas fundamentais, bem como em alguns bairros populares das grandes cidades. Os territórios disputados são, mais uma vez, estratégicos.

Verdadeiras operações de larga escala foram montadas para acabar com a delinquência armada. Assim, em maio de 2016, um dos piores grupos criminosos da Venezuela é desmontado no estado regional do Guárico, e seu líder - José Antonio Tovar, vulgo "El Picure" - é morto. A posição deste estado central é eminentemente estratégica. 60% da produção agrícola e pecuária venezuelana transitam por ele (8), seja para ser transportada para complexos agroindustriais, seja para ser vendida diretamente aos habitantes das grandes cidades, localizadas na costa caribenha. O controle das rotas de abastecimento das grandes cidades é mais uma vez o motivo de uma luta impiedosa entre o Estado venezuelano e o crime organizado. É um passo em andamento na guerra irregular contra a Venezuela. O estado de Guárico abriga também a base militar Capitan Manuel Rios, centro de controle do satélite Venesat I.

Nos estados de Aragua e de Carabobo, outra organização criminosa faz reinar o terror: o Tren de Aragua, que leva o nome de um sindicato da máfia que extorquia dinheiro dos construtores do sistema ferroviário. Confrontos com os serviços do estado e esse grupo são comuns nessas regiões onde se concentram as indústrias venezuelanas. Um de seus líderes, preso no Peru durante uma tentativa de assalto, confessou ter que fugir da Venezuela por causa da "incessante perseguição da polícia" (9).

A força de ataque desses batalhões irregulares não deve ser negligenciada. O dia 6 de maio de 2019, o general de aviação Jackson Silva, diretor da Escola de Treinamento de Tropas Profissionais, e quatro outros oficiais foram mortos em uma emboscada feita pelo Tren de Aragua. Quatro outros soldados ficaram feridos na luta contra os membros desse sindicato do crime (10). 

No estado rico de Bolívar, fronteiriço com o Brasil, a polícia venezuelana derrotou o delinquente equatoriano Jamilton Ulloa, também conhecido como El Topo. Ele era o líder de um grupo armado que aterrorizava parte da área de mineração. Esse grupo foi o principal responsável pelo massacre de Tumeremo, onde dezessete mineiros foram assassinados. Na mesma lógica das Guarimbas, as gangues criminosas visam controlar setores-chave da economia do estado de Bolívar, onde se encontra a orla petrolífera do Orinoco, as segundas reservas de ouro no mundo e um subsolo que é cheio de minerais. É também nessas terras que estão instaladas três barragens hidráulicas que fornecem 70% da eletricidade do país. E tanto como as guarimbas, o crime organizado pretende substituir-se ao Estado com a complacência dos políticos de oposição.


Situação geográfica do Estado do Guárico (em branco), da orla petrolífera (em marrom), do arco mineiro (em amarelo) e das 3 barragens hidráulicas (pontos vermelhos)

Quando os Estados Unidos tentaram uma luta de braço com o presidente Maduro a respeito da "ajuda humanitária", a oposição venezuelana revelou uma parte do seu exército de reserva. Como mencionado por Freddy Bernal, prefeito do estado fronteiriço de Táchira, numerosos membros da organização Tren de Aragua chegaram à fronteira colombiana para piorar a situação (11). Na fronteira do Brasil, outra gangue criminosa, a Guarda Territorial Pemon, entrou em choque armado com o exército. Resultado: vários mortos nas fileiras dos delinquentes. Isso foi imediatamente seguido por uma campanha midiática - destinada a certos setores das populações da Europa e da América do Norte - sobre um suposto massacre ou "genocídio" de índios da etnia pemonense pelo governo de Nicolas Maduro (12).

No entanto, foi comprovado que um grupo criminoso, chamado Guarda Territorial Pemon, composto em parte por índios desse grupo étnico, está envolvido em atividades ilícitas no sul do estado do Bolívar (13). Quando Juan Guaido se proclama presidente, o prefeito venezuelano da cidade fronteiriça com o Brasil o reconhece imediatamente e "põe à sua disposição sua Guarda Territorial Pemon" (14). Eles são os que entraram em confronto com o exército no dia 23 de fevereiro de 2019. Os mortos daquele dia são o resultado de um confronto entre os soldados venezuelanos e um grupo armado, estranhamente em simbiose com os objetivos políticos da oposição.

Não há túnicas, penas, aljavas ou arcos para esses índios, membros da Guarda Territorial Pemon (fonte: ElCooperante.com, um site relacionado à oposição) (15)

Em alguns bairros populares das grandes cidades, a máfia e as células paramilitares dormentes nunca hesitam em apoiar os projetos políticos da oposição. No dia 23 de janeiro de 2019, depois que Juan Guaido se declarou presidente, várias gangues armadas entraram em confronto com as Forças Especiais da Polícia Nacional Bolivariana, inclusive nos bairros José Felix Ribas, El Valle, Coche, Boquerón e El Guarataro. Esses grupos do crime organizado alegaram estar colocando a cidade em chamas como uma "contribuição" para a revolta organizada pelo Guaido (16). Esses bairros populares ocupam todos uma posição estratégica em Caracas. Eles estão todos localizados perto de vias de entrada na cidade. Boquerón tem vista para a autopista que leva do porto de La Guaira (e do aeroporto internacional) para Caracas. José Felix Ribas está localizado no sopé da autopista Gran Mariscal de Ayacucho, porta de saida para o leste do país. El Valle-Coche é um bairro situado em frente ao Fuerte Tiuna, o principal quartel do país, e colado à autopista regional do centro, que liga Caracas ao oeste da Venezuela. É também o bairro do mercado atacadista onde se concentra a produção de alimentos da Venezuela: o equivalente venezuelano do mercado de Rungis (NDT que abastece Paris na França). El Guarataro está situado entre a estrada norte-sur, passagem obrigatória para chegar a La Guaira, e a Avenida San Martin, uma artéria importante da capital. Mais uma vez, locais eminentemente estratégicos, adjacentes aos canais de comunicação de Caracas com o resto do país, que certamente estarão no centro da luta se uma operação militar fosse se tornar oficial.

 Localização dos confrontos do 23 de janeiro de 2019 e das principais vias da cidade (+ bairro de Chacao)

Desde 2015, o Estado venezuelano se fortaleceu na luta contra o crime organizado para não permitir que gangues criminosas invadissem os territórios da República. Essa data é a certidão de nascimento das Forças de Ações Especiais da Polícia Nacional Bolivariana: FAES, o equivalente do RAID francês, do CGSU belga ou da unidade Tigris da Suíça. Eles estão agora na linha de frente no confronto com o crime organizado e os paramilitares.

Não é por acaso que esse corpo de elite da polícia seja agora objeto de múltiplas falsas notícias. A noite da autoproclamação de Guaido, a FAES lutou contra essas gangues criminosas que pretendiam levar Caracasao caos. O confronto deu origem a verdadeiras cenas de guerra, que explicam a maioria das perdas humanas. Ao contrário do que disseram porta-vozes midiáticos de Guaido, naquele dia, gangues armados ligados à oposição lutaram contra a polícia (17). Poucos dias depois, o FAES é acusado de "sequestrar" ou de "recrutar à força" crianças para usá-las como escudos humanos (18): outra notícia falsa ...

Desde então, não passa nenhum dia sem que essa força policial seja alvo de ataques midiáticos. A maioria das fontes contra a polícia vem de políticos da oposição ou de ONGs dos “direitos humanos” ligadas à oposição. Essas ONGs - como Foro Penal ou Provea - são financiadas por organizações como a Open Society Fundation, do George Soros, Freedom House e a Fundação Ford (19). Essas duas últimas são ligadas ao mundo da inteligência dos Estados Unidos (20). O mero fato de que essas fontes sejam tendenciosas, porque financeiramente e politicamente ligadas a um campo beligerante, deveria ser o suficiente para relativizar suas observações. Porém, elas são insaciavelmente repetidas por todo o sistema midiático e por ONGs internacionais como a Amnesty International ou a Human Rights Watch.

No caso da ONG partidária Amnesty - que, não esqueçamos, espalhou o rumor da destruição de incubadoras pelo exército iraquiano em 1990 (21) - essas acusações infundadas serviram como justificativa para exigir que as autoridades venezuelanas fossem levadas perante o Tribunal Penal Internacional (TPI) por "crimes contra a humanidade" (22). Um pedido estranho que coincide em todos os aspectos com as acusações apresentadas ao TPI por seis países inimigos da Venezuela (Canadá, Colômbia, Argentina, Chile, Paraguai, Peru) (23).

A Secretaria da Organização dos Estados Americanos (OEA) ou o Grupo de Lima repetiram ao pé da letra as notícias falsas contra a FAES, o que é normal, dado seu ativismo para derrubar o Presidente Maduro (24). Mas essas acusações foram também mencionadas pelo escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). No entanto, a leitura da introdução dos relatórios do ACNUDH nos informa, desde o início, que a sua análise é baseada apenas em entrevistas com membros das ONGs venezuelanas (25). É, portanto, uma "verdade" enviesada e fechada que emerge para a opinião pública: ONGs da oposição, financiadas por uma potência estrangeira hostil, escrevem relatos alarmantes que são repetidos como tal ao nível internacional, justificando assim o discurso dos opositores venezuelanos. O FAES é, assim, catapultado para o papel do mau, que impediria ao povo de "recuperar a sua liberdade", de acordo com a novilíngua da Casa Branca.

Essa leitura truncada e simplista não deve nos levar ao extremo oposto. As Forças Especiais da Polícia não são más nem boas. É um grupo de combate que está impedindo, violentamente, algumas gangues criminosas de varrer a Venezuela. Perguntado em Caracas sobre os ataques midiáticos sofridos pelo FAES, um consultor em segurança nos falou: "Se tem uma guerra psicológica contra o FAES, é porque são eles que, no final, protegem a paz civil".

Freddy Bernal, prefeito da região fronteiriça do Tachira, reforça essa afirmação: "A tarefa do FAES é combater as gangues criminosas e os paramilitares. Se há tantos ataques contra o FAES, é porque o objetivo é a eliminação dessa unidade de elite da polícia nacional "(26).


 Um membro das Forças Especiais da Polícia Nacional Bolivariana (FAES)

A Venezuela se encontra hoje entre as perspectivas de diálogo e as ameaças dos Estados Unidos e dos seus aliados. No entanto, a falta de apoio popular de Juan Guaido sugere que um confronto militar poderia ser preparado à medida que a perspectiva de mudança de regime por outros meios se afasta. Como acabamos de ver, todos os futuros participantes desse conflito já estão no caminho da guerra.

O exército irregular, que não deixará de se difundir pelo país, já está em movimento. Nos últimos meses, a Venezuela enfrentou vários assassinatos de policiais. Além do assassinato do general Jakson Silva, a polícia é sistematicamente alvo de grupos criminosos (27). Da mesma forma, vários locais do Partido Socialista Unido da Venezuela (Psuv, partido no poder) foram destruídas por incêndios criminosos. Esse tipo de ataque foi um dos modus operandi das guarimbas. Mais recentemente, no dia 23 de janeiro de 2019, a sede do partido no estado do Monagas foi reduzida a cinzas. O dia 4 de maio de 2019, no centro de Caracas, é o local do partido no bairro de San Agustin, que foi incendiado (28).

Além disso, numerosos líderes sindicais e camponeses, partidários da Revolução Bolivariana, foram vítimas de assassinatos seletivos. Em 2014, dois líderes políticos importantes do chavismo foram exterminados de maneira selvagem: Eleizer Otaiza, presidente do conselho municipal de Caracas, e o deputado Robert Serra (assim como a sua assistente, Maria Herrera). Esses líderes eram especialistas dos temas da segurança do Estado e denunciaram muitas vezes os vínculos dos paramilitares com a oposição venezuelana.

No dia 10 de janeiro de 2019, um armazém de 22.000 m² que pertencia ao Instituto Venezuelano de Previdência Social é devastado por um incêndio criminoso. As perdas para a saúde pública são enormes e atingiram um país que enfrenta um bloqueio violento por parte dos Estados Unidos, e para o qual as importações nessa área continuam sendo difíceis (29). Na mesma linha, no dia 27 de fevereiro de 2019, é um depósito de alimentos destinado a ser distribuído para a população via os Clap, que sobe em fumaça. No dia 7 de março de 2019, as usinas hidrelétricas foram hackeadas e o país mergulhou na escuridão (30). Dia 14 de março de 2019, um ataque destruiu três tanques de nafta, solvente essencial para a mistura de óleo extra pesado da Venezuela. Nesse mesmo dia, a empresa indiana Reliance Industries Ltd teve de ceder à pressão dos Estados Unidos e se recusou a vender nafta à Venezuela (31). Dia 4 de abril de 2019, é um oleoduto no leste do país que foi alvejado e explodiu, cortando o suprimento de petróleo bruto nas regiões orientais da Venezuela (32).

Estes ataques múltiplos, sinais da guerra híbrida em curso, se intensificarão certamente. Se vocês confiam nas mídias ou nas ONGs como a Amnesty International para denunciar esses atos de guerra, vocês estão perdendo seu tempo. Eles já escolheram o lado da oposição (33).

Paralelamente aos ataques diplomáticos e institucionais, confrontados a um bloqueio criminoso cujas consequências são terríveis para a população, o governo de Nicolás Maduro e o povo venezuelano devem agora se preparar para o constante aumento da tensão militar não convencional, concebida para criar um estado de sítio permanente e enfraquecer as estruturas do Estado venezuelano de maneira duradoura.

Para as outras partes da análise “Venezuela: entender a guerra que vem”, clicar aqui.

Para as outras partes da análise “Venezuela: entender a guerra que vem”, clicar aqui.


Tradução: Ulysse Gallier

Notas:
________________________________________
(1) Romain Migus, “Nuit de cristal au Venezuela”, Venezuela en Vivo, 17/04/2013, https://www.romainmigus.info/2013/06/nuit-de-cristal-au-venezuela.html

(2) Luigino Bracci, “Liste des victimes des manifestations au Venezuela (avril à juillet 2017)”, Alba Ciudad, 24/07/2019,  https://wp.me/p17qr1-MIU

(3) Romain Migus, “La fabrique de la terreur”, Venezuela en Vivo, 25/03/2014, https://www.romainmigus.info/2014/03/la-fabrique-de-la-terreur.html

(4) O caso de Neomar Lander é um bom exemplo dos "mártires" das guarimbas. Esse jovem se matou manipulando uma argamassa artesanal, que ele usou para tentar assassinar policiais. Apesar das evidências - a cena foi filmada nas redes sociais, e o tipo de ferida que afundou as costelas, e levou um pulmão - os líderes da oposição e a mídia privada sugeriram que foi um erro policial. T-shirts e bonés apareceram em tempo recorde à imagem do jovem Neomar. A construção midiática do mártir se impôs à verdade.

(5) Voir Romain Migus, “La fabrique de la terreur”, op.cit. 

(6) O municipio é uma entidade administrativa venezuelana do tamanho de um departamento francês. É administrado por um prefeito.

(7) Jose Negron Valera, “La balcanización: el plan del nuevo orden mundial para Venezuela”, Sputnik News, 24/04/2018, https://mundo.sputniknews.com/firmas/201804241078149841-caracas-paises-occidentales-desintefracion/

(8) “El paramilitarismo y la disputa por las zonas estratégicas del país”, Misión Verdad, 10/05/2016, http://misionverdad.com/la-guerra-en-venezuela/el-paramilitarismo-y-la-disputa-por-las-zonas-estrategicas-del-pais

(9) “El Catire, el sanguinario miembro del Tren de Aragua que sembró terror en Perú”,Caraota Digital, 07/08/2018, http://www.caraotadigital.net/sucesos/el-catire-el-sanguinario-miembro-del-tren-de-aragua-que-sembro-terror-en-peru/

(10) “Caso de militares emboscados en Magdaleno da un inesperado giro”, EP Mundo, 06/05/2019,  http://epmundo.com/2019/caso-de-militares-emboscados-en-magdaleno-da-un-inesperado-giro/

(11) “Bernal: La oposición contrató al Tren de Aragua en la frontera para generar violencia”, Noticias24, 03/03/2019, https://www.noticias24.com/venezuela/noticia/352414/bernal-la-oposicion-contrato-al-tren-de-aragua-en-la-frontera-para-generar-violencia/

(12) Axel Gylden, “Venezuela: un discret massacre d'Indiens d'Amazonie, signé Maduro”,L’Express, 28/02/2019, https://www.lexpress.fr/actualite/venezuela-un-discret-massacre-d-indiens-d-amazonie-signe-maduro_2064470.html

(13) “Continúan los ataques de paramilitares pemones en la Gran Sabana”, Caraota Digital, 29/11/2017, http://www.caraotadigital.net/sucesos/continuan-los-ataques-de-paramilitares-pemones-en-la-gran-sabana/. Este artigo escrito em um dos principais sites de notícias da oposição venezuelana é anterior de mais de um ano aos confrontos do 23 de fevereiro de 2019. 

(14) Elizabeth Reyes, “Alcalde indígena y guardia Pemon reconocen a Guaido como presidente de Venezuela”, Eknuus, 01/02/2019, https://eknuus.com/2019/02/01/alcalde-indigena-y-guardia-pemon-reconocen-a-juan-guido-como-presidente-de-venezuela/

(15) Lysaura Fuentes, “1500 familias de La Gran Sabana están bajo el yugo de paramilitares indígenas (+Fotos)”, El Cooperante, 29/11/2017, https://elcooperante.com/paramilitares-indigenas-mantienen-sometidas-a-1500-familias-en-bolivar-fotos/

(16) “Confirmado: bandas criminales protagonizaron violencia nocturna el 23 de enero”,Misión Verdad, 01/02/2019, http://misionverdad.com/tendencias/confirmado-bandas-criminales-protagonizaron-acciones-violentas-en-la-noche-del-23-de

(17) “Conozca el prontuario de los líderes pagados por la derecha para generar violencia”, Con El Mazo Dando, 30/01/2019,  https://www.conelmazodando.com.ve/aqui-conozca-el-prontuario-de-los-lideres-pagados-por-la-derecha-para-generar-violencia

(18) Faviola Acosta, “Denuncian reclutamiento de niños y jóvenes por parte del Sebin y FAES”, Notivenezuela, 30/01/2019, https://www.notivenezuela.com/noticia/denuncian-reclutamiento-de-ninos-y-jovenes-por-parte-del-sebin-y-faes-20334

(19) “Ongs en venezuela y financistas que operan detrás de ellas”, Misión Verdad, 02/05/2016, http://misionverdad.com/la-guerra-en-venezuela/ongs-en-venezuela-y-financistas-que-operan-detras-de-ellas-infografias

(20) Romain Migus, Eva Golinger, La Telaraña Imperial, ed. Monte Avila, Caracas: 2008, disponible sur https://www.romainmigus.info/2013/06/la-telarana-imperial.html

(21) “Irak / Koweït occupé: Violations des droits de l'homme depuis le 2 août 1990” document externe d’Amnesty International, 12/12/1990, https://www.amnesty.org/download/Documents/200000/mde140161990fr.pdf

(22) “Venezuela : Amnesty appelle la CPI à enquêter sur des «crimes contre l'humanité»”, Le Figaro, 14/05/2019, http://www.lefigaro.fr/flash-actu/venezuela-amnesty-appelle-la-cpi-a-enqueter-sur-des-crimes-contre-l-humanite-20190514?redirect_premium

(23) Cours pénale Internationale, “Venezuela: examen préliminaire”, https://www.icc-cpi.int/venezuela?ln=fr

(24) Maurice Lemoine, “Pourquoi le Venezuela a expédié un bras d’honneur á l’OEA?”, Mémoires des Luttes, 13/05/2019, http://www.medelu.org/Pourquoi-le-Venezuela-a-expedie-un-bras-d-honneur-a-l-OEA

(25) Oficina del Alto Comisionado de las Naciones Unidas para los Derechos Humanos, “Violaciones de los derechos humanos en la República Bolivariana de Venezuela: una espiral descendente que no parece tener fin”, junio 2018, https://www.ohchr.org/Documents/Countries/VE/VenezuelaReport2018_SP.pdf.
Em 2019, o governo convidou membros dessa delegacia de polícia a irem à Venezuela. Apesar do fato de que eles puderam se reunir com altos funcionários e membros da sociedade civil, o relatório final é baseado apenas em relatórios das ONGs.

(26) Romain Migus, “Interview exclusive avec Freddy Bernal”, Youtube, 25/02/2019, https://www.youtube.com/watch?v=Mq55NuS0ues

(27) A mesma gangue que entrou em choque contra o FAES no dia 23 de janeiro de 2019 assassinou e feriu policiais dia 20 de março. Voir “Banda del Wilexis atacó a policías”, Ultimas Noticias, 20/03/2019, disponible sur https://theworldnews.net/ve-news/banda-del-wilexis-ataco-a-policias

(28) “Casa del Psuv en San Agustín del Norte fue atacada por grupos violentos”, Venezolana de Televisión, 04/05/2019, http://vtv.gob.ve/atacada-casa-psuv-sanagustin/

(29) “Gobierno Nacional denuncia que incendio provocado en almacenes del IVSS causó pérdidas incalculables”, Venezolana de Televisión, 11/01/2019, http://vtv.gob.ve/gobierno-nacional-denuncia-incendio-provocado-almacenes-del-ivss-causo-perdidas-incalculables/

(30) “Rusia afirma que el apagón en Venezuela fue causado por extranjeros que conocían el funcionamiento de equipos eléctricos canadienses”, RT, 15/03/2019, https://actualidad.rt.com/actualidad/308693-rusia-apagon-venezuela-extranjeros-equipos-canadienses

(31) Nidhi Verma, “Reliance halts diluents export to Venezuela, not raised oil buying”, Reuters, 13/03/2019,

(32) Freddy Vasquez, “Explosión de oleoducto en Urica dejan incomunicados a los estados Monagas y Anzoátegui”, El Periódico de Monagas,  04/04/2019, https://www.elperiodicodemonagas.com.ve/site/sucesos/explosion-de-oleoducto-en-urica-dejan-incomunicados-a-los-estados-monagas-y-anzoategui/

(33) Maurice Lemoine, “Amnesty International veut la guerre au Venezuela”, Le Grand Soir, 07/05/2019, https://www.legrandsoir.info/amnesty-international-veut-la-guerre-au-venezuela.html