Venezuela : entender a guerra que vem. Parte 1/5


A guerra na Venezuela já começou. Mas uma ofensiva de grande amplitude está se preparando contra o país caribenho, que somente a capitulação total ou a disparição do campo bolivariano poderiam freiar. Como essas opções não estão na ordem do dia, o conflito militar contra a Venezuela toma todo dia mais forma.

Como entender a guerra anunciada ? Quais serão os protagonistas envolvidos nesse conflito?  Quais serão as estratégias utilizadas para devastar o país? Nessa análise em 5 partes, nós tentaremos responder a essas questões, para que nossos leitores entendam todas as dimensões de um confronto que parece inevitável.



1a parte: o papel dos Estados-Unidos e dos seus aliados.

« Todas as opções estão na mesa ». Dia 23 de janeiro de 2019, data da tentativa de golpe de estado contra o presidente venezolano Nicolas Maduro, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump reiterou as ameaças militares contra a Venezuela que ele já proferiu desde agosto de 2017. Essa declaração serve a confundir o cidadão a respeito da realidade venezolana: ela supõe que a guerra contra esse país é uma opção, enquanto, na realidade, ela já começou desde vários anos. A guerra de quarta geração, já teoretizada por estratégios estadunidenses desde outubro de 1989, se tornou a opção bélica para enfrentar um povo e seu governo. Esse novo tipo de guerra é multiforme, contra o povo no seu conjunto, e não mais contra o seu exército.

A Venezuela luta contra múltiplas frentes dessa guerra total. Primeiro a frente diplomática, que visa isolar o país no cenário internacional, e a frente institucional, que tem como meta um confronto entre poderes fictícios e os poderes legítimos da Venezuela. A frente midiática-psicológica se estende não somente ao povo venezolano no seu conjunto, mas também aos cérebros de todos os cidadãos do mundo, considerados de fato como alvos de guerra. A guerra económica, o bloqueio financeiro e as sanções contra a Venezuela fazem parte da frente econômica projetada para estrangular lentamente os habitantes da Venezuela. Por último, a frente militar e a guerra asimétrica. Nessa guerra de quarta geração que, repetimos mais uma vez, já começou na Venezuela, não há etapas nem hierarquia entre as diferentes frentes. É uma ofensiva guerreira total e permanente, onde todos os elementos estão interligados.

No imaginário coletivo, uma guerra há de ser imediatamente inteligível e compreensível por qualquer um. Desde 1991 e a midiatização da guerra do Golfo, a maior parte dos cidadãos se acostumou a uma retransmissão ao vivo das operações militares. As guerras do Irak (1991, 2003), da Jugoslávia (1999) ou do Afeganistão (2001) marcaram profundamente os espíritos. Nós todos lembramos dos bombardeios, do desembarque das tropas e da execução ou da detenção daquele designado como vilão.     

As declarações permanentes do presidente Trump reativaram esse conjunto de representações comuns no imaginário dos cidadãos dos paises ocidentais. Elas tiveram também como consequência de deixar entender que a guerra ainda não tinha começado, porque o espectador ocidental ainda não a « viu », que as imagens tradicionais às quais ele associa a guerra ainda não estão disponíveis nas mídias.

A opinião pública ocidental se acostumou a uma estratégia de guerra que não ocorre mais. A grande maioria dos cidadãos europeus e norte-americanos não dispõem dos elementos para compreender as novas estratégias militares dos Estados Unidos. Por consequência, eles têm muita dificuldade para entender o desenvolvimento, as questões envolvidas e as evoluções dos novos teatros de operação dos Estados Unidos no mundo. Essa é uma das razões que explica, em parte, porque não teve nenhum movimento popular contra as guerras na Líbia ou na Síria, diferentemente das operações militares anteriores.

Pensar a guerra na Venezuela em termos tradicionais, e sem contextualizá-la dentro da estratégia integral dos Estados Unidos, nós impede entender como se prepara a ofensiva militar contra o pais bolivariano.

O objetivo dos Estados Unidos e o papel dos países vizinhos da Venezuela

Ao contrário das representações tradicionais dos conflitos armados, não se deve esperar uma invasão da Venezuela pelas tropas estadunidenses. Por uma parte, os Estados Unidos não interviram diretamente na região desde 30 anos (Panamá) e, por outra parte, o custo político e económico seria alto demais. Isso levaria a uma guerra civil muito longa e obrigaria os Estados Unidos a atolar-se na ocupação do território venezolano e a enfrentar uma população hostil e em boa parte treinada militarmente. Aliás, essa opção não parece ter sido privilegiada pela administração US. Por isso, o presidente Trump começou, em 2017 já, a avaliar a possibilidade que alguns governos de direita da região lancem uma guerra por procuração na Venezuela, desde os países vizinhos.

Nessa ocasião também, o morador da casa branca não conseguiu o apoio dos países latino-americanos. Os militares brasileiros, que entraram de facto no Planalto, não gostam da ideia de criar uma área de destabilização nas fronteiras do Brasil. O exército teme, com razão, que um conflito armado nessa região venha ameaçar a sua soberania e os seus interesses estratégicos sobre a Amazonia brasileira.

A respeito da Colombia, o seu Quartel General é perfeitamente consciente de que enviar tropas na Venezuela significaria abandonar grandes porções de território: por uma parte, aos protagonistas do conflito interno que corrói o pais há décadas, e por outra parte aos grupos criminosos e paramilitares que florescem no país. Um conflito com a Venezuela resultaria em consequências trágicas em todo o território colombiano. 

Outro argumento importante, os exércitos vizinhos estão agora sabendo do novo poder de fogo venezolano. Desde a chegada ao poder de Hugo Chávez, a Venezuela reforçou consideravelmente as suas capacidades militares, entre outros graças a acordos de cooperação com a Rússia, e a compra de material russo e chinês. A capacidade de defesa antiaérea (Buk-M2, S-125 Pechora, S-300, radars JYL 1 3D e JY1 B, e também a obtenção massiva de mísseis terra-ar portativos Igla-S, e a formação de muitos milicianos ao manejo deles) torna muito arriscado o apoio tático por forças aéreas. E mesmo se uma improvável operação em terra fosse lançada desde os países vizinhos, eles deveriam enfrentar um exército profissional preparado, e o Povo armado, reunido na Milícia Nacional Bolivariana. Com efeito, desde 2005, a Venezuela mudou radicalmente a sua doutrina militar, adaptando-se às técnicas da guerra asimétrica. Para esse efeito, o governo criou um novo corpo militar, que conta hoje dois milhões de pessoas. Invadir a Venezuela é uma operação muito complicada, e manter uma força de ocupação estrangeira para pacificar o país é uma quimera.


A isso se deve adicionar que, desde a autoproclamação de Juan Guaido como presidente, o dia 23 de janeiro de 2019, a Escola superior de guerra do exército venezolano formou mais de 300 correspondentes de guerra, os treinando ao lado dos batalhões das suas forças armadas. Portanto, seria muito difícil para qualquer um enviando tropas na Venezuela esconder as perdas humanas à sua própria população. Aos riscos militares se junta o risco político-eleitoral para aqueles que assumiriam, sozinhos, um tal projeto.

Se a Colombia é o único país latino-americano associado à OTAN, lembramos que a Venezuela tem parceiros diplomáticos e comerciais importantes, junto com acordos técnico-militares com vários países, incluindo a Rússia e Cuba. O país poderia assim se tornar um barril de pólvora que não garantiria a integridade territorial aos vizinhos bélicos.

Apesar das gesticulações dos presidentes colombiano e brasileiro, parece pouco provável que a vontade dos Estados Unidos de provocar um conflito por procuração leve esses países a assumir, sozinhos, o peso da guerra contra a Venezuela.

No entanto, nada impediria a intervenção deles, caso tivessem o pretexto de um conflito interno ou de provocações sob falsa bandeira. Mas, no caso, se trataria de conter a guerra fora das suas fronteiras, e apoiar logisticamente o campo anti-bolivariano.

As viagens recorrentes de alto responsáveis militares estadunidenses na Colombia, e as reuniões entre os diplomatas brasileiros e o secretário de estado Mike Pompeo parecem comprovar a implicação desses países no caos por vir, sem que os seus exércitos tenham de assumir a integralidade do papel dos agressores.

Por outra parte, mesmo que uma invasão dos Estados Unidos seja pouco provável, Washington está efetivamente em pé de guerra. Dia 13 de maio de 2019, por um movimento anti-patriótico histórico, Juan Guaido pediu a cooperação dos militares estadunidenses para intervir no seu próprio país. Ora, a Venezuela está rodeada de bases militares que com certeza servirão de pontos de apoio a um conflito armado. Os Estados Unidos dispõem, com efeito, de sete bases na Colombia e de várias outras no Caribe. O dia 13 de fevereiro de 2019, o Estado cubano denunciava, nesse sentido, a instalação de forças especiais dos Estados Unidos em Porto Rico e na República Dominicana. Respeito às bases de Washington nas Antilhas Neerlandesas, elas tomam uma dimensão particular, porque elas se encontram a algumas dezenas de kilómetros da principal refinaria da Venezuela

As instalações dos Estados Unidos nessa região poderiam servir a realizar o bloqueio naval desejado por Washington contra a Venezuela. Isso sem dúvida transformaria o Caribe num teatro de operação militar que teria como consequência a transposição da guerra nas fronteiras da França (e dos Países Baixos), e de conduzir esses países num conflito que eles não iniciaram. Efectivamente, em virtude do tratado do dia 17 de julho de 1980, a fronteira entre a República francesa e a Venezuela é fixada pelo meridiano 62 graus 48 minutos 50 segundos, situado ao largo de Guadalupe e de Martinica.

Mesmo que a ofensiva militar ja tenha começado na Venezuela, como analisaremos ulteriormente, o conflito deveria tornar-se mais trágico, dados os recentes movimentos da administração estadunidense. O agravamento da situação na Venezuela, e consequentemente de alguns dos seus vizinhos sul-americanos e caribenhos (Cuba e a Nicarágua estão na linha de fogo) parece mais que provável.

Os interesses envolvidos na Venezuela revelam uma coalição de aliança muito mais ampla que aquela que apoiou a República Árabe Síria em 2011, e asseguram uma proteção relativa à Revolução Bolivariana. Mas o objetivo dos Estados Unidos é a mudança do regime, ou a devastação da Venezuela para que nenhuma estrutura estatal possa assegurar o controlo e a distribuição dos recursos minerais e petrolíferos? 

Privilegiando a segunda opção, os eventos se tornam inteligíveis em conjunto, e portanto analisáveis: pela fragmentação da unidade do país e, portanto, da autoridade do Estado sobre o território, tornando impossível a administração pública das riquezas energéticas e minerais, os Estados Unidos querem influenciar duravelmente a gestão dos recursos naturais da Venezuela.

Para conseguir aquilo, os Estados Unidos não precisam de um exército regular; nem o deles, nem o dos vizinhos da Venezuela. Um exécito irregular composto por grupos múltiplos, internos ou estrangeiros irá encarregar-se da destruição do país, e do controlo de alguns territórios. Esse é, aliás, o sentido da chamada lançada pelo Roger Noriega, veterano da guerra suja dos Contras contra a Nicarágua na década de 80. 

Antes de descrever quem vão ser os beligerantes e de entender as estratégias que irão com certeza ser aplicadas contra a Venezuela, voltamos a uma etapa fundamental para a constituição desse exército criminoso.


Tradução: Ulysse Gallier